Volto de férias e encontro-me com os mesmos problemas!

Volto de férias e encontro-me com os mesmos problemas!

É um discurso comum. A gestão do trabalho, a relação com os colegas, as dificuldades de comunicação, (da intimidade, à gestão das rotinas) a vida do casal e o fantasma da monotonia. Fica a ameaça à espreita causada pelos desafios que existem pela frente. Será que sou capaz?

O regresso à velha rotina é muito vezes pautado por este tipo de ansiedade, não raro depois de umas férias que para alguns  foram desgastantes (ou porque os filhos não dão descanso, ou porque estiveram sempre a viajar, ou a decisão passou por ir a festivais em que o dormir e o repouso foram raros). Os dois dias antes de voltar ao trabalho nunca serão suficientes para o que é necessário repor.

Neste registo, as possibilidades de desorganização emocional são várias. O sentir-se infeliz, frustrado, zangado e em perda, levam à necessidade de fazer algum tipo de mudança. Mas, apesar do mal estar instalado, as pessoas tendem a procrastinar, revivendo os mesmos desconfortos com os quais se resignam.

A pessoa sente-se e pensa-se, [1] mas sem uma acção efetiva que decorra dessa reflexão, suceder-se-ão os movimentos (mais para dentro ou para fora) desproporcionados, de desadequação comportamental, seja na relação com os colegas ou familiares e manifestações psicossomáticas como o cansaço extremo, cefaleia aguda, sinusite, rinites (e outras ites) dores musculares imobilizantes, tensão baixa, eventual desmaio, dificuldades em adormecer.

Isto leva a pessoa a procurar explicações médicas que invariavelmente não resultam em nada a não ser numa provável prescrição médica e eventual baixa médica. É uma solução precária uma vez que não resolve o problema de fundo,

O que mudar?

Mudar em primeiro lugar o quê?

Como fazer essa mudança?

Como avaliar as implicações dessas mudanças?

Mistificações (medos) associadas às mudanças.

Qualquer mudança tem inevitavelmente implicações significativas noutras áreas da vida que esta tem como seguras. Por isso ser tão difícil fazer/ aplicar de forma consistente medidas concretas que viabilizem essa(s) mesma(s) mudanças.

Um clássico exemplo é: “como posso ir ao ginásio se àquela hora tenho de ir buscar os miúdos?” muitos adotam... “responsabilizar” os filhos para que tudo fique na mesma. Mas mesmo quando a pessoa vê outras possibilidades rapidamente surge algo que se sobrepõe, levantando-se assim mais obstáculos. É o cão, o gato, a sogra, o periquito, o relatório, a inspeção no trabalho, a associação de moradores, tudo se sobrepõe a si. 

Uma pequena, mas importante mudança implica por vezes alterações (logísticas significativas) à sua volta. E isto por vezes é sentido de forma culpabilizante. A pessoa tende a amplificar o impacto dessa mudança,  que tem naturalmente um período de adaptação[2] e gradual acomodação. Uma vez integrada, as possibilidades da mudança desejada são maiores. No entanto, o sucesso ainda não está garantido, pois à espreita estão muitas tentações que podem levar a pessoa à posição anterior. Avanços e retrocessos fazem parte do processo.

É importante ter presente o tempo de latência, os velhos hábitos demoram a dar espaço aos novos. Fazer diferente apresenta sempre um grau de incerteza muito elevada quanto à possibilidade de sucesso (a possibilidade do sucesso também assusta exactamente por contrariar aquilo em que sempre se acreditou).

A pessoa confronta-se com vários aspectos que a fazem hesitar, sendo o primeiro e mais significativo “o estar sozinha”. São processos estritamente pessoais de que só ela sabe. É dentro de si que correm os pensamentos, as inseguranças, o que sente e por isso é fundamental procurar ajuda especializada que possibilite fazer este processo com alguém ao seu lado. Esse apoio fará certamente a diferença!

 

 


[1] O pensamento sem ação (inação) resulta muitas vezes em movimentos (auto) punitivos / (auto) agressivos e que decorrem de um sentimento culpabilizante ou culpabilizado. Ex: eu não fiz porque sou preguiçoso / eu não fiz porque o outro não me permitiu.

 
[2] Período critico que requer maior capacidade para lidar com o novo, que mesmo sentindo prazer (no que experimenta) convoca desconforto e tentação para voltar ao registo anterior.

 

 

Miguel Rodrigues é Psicólogo Clínico e Psicoterapeuta. 

Aborda uma multiplicidade de temas como a depressão, ansiedade, separação, divórcio, desgaste psíquico, burnout, doença psicossomática, perturbações alimentares, adições, instabilidade no humor, bipolaridade, esquizofrenia, estados confusionais, ideação suicida, pensamentos intrusivos e desorganizantes, ataques de pânico, dificuldade em dormir/ descansar/ tirar férias, desorientação, desemprego prolongado, dificuldade na carreira profissional, relações familiares desajustadas.

 

 

 

 

 

 

 

 
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